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novembro 18, 2003

CROMOS DA ACTUALIDADE

" O ZÉ BROA "

Nasceu num meio pobre. Foi, como dizia o poeta " crescido e ensinado nos cordeis do desenrasca ". O pai, alcoólico crónico, já tinha tentado fazer várias desentoxicações mas sem resultado algum: Afinal, se ia ainda a Assistente Social era para sacar algum dinheirito que ela conseguia para a família comprar o pão e o leite para os miúdos - dizia ela -, é que a massa fazia era falta para beber mais uns copos de três na tasca do Manel Galego, e, as desentoxicações eram o pagamento que ele fazia à menina da Segurança Social. Quando chegava a casa completamente pifado e a mulher lhe pedia algum do dinheiro para comprar umas carcaças e um litro de leite para os putos, espetava-lhe uma carga de porrada nas ventas dizendo: " Dinheiro? mas qual dinheiro, minha v... do ca.....? Vai mas é trabalhar! Vai esfregar escadas que é a única coisa que sabes fazer, minha calona!
E o baile continuava tarde/noite dentro. O puto assistia aquelas cenas berrando agarrado às saias da mãe.Quando, tarde, fez a 4ª classe, foi trabalhar para a oficina do Zé Malho, aprender a profissão de Bate-Chapas.Cresceu no meio da cultura do calendário com uma dama de seios fartos, colado na parte interior do armário onde alternavam os jeans deslavados e o fato de macaco. Assim que fez 18 anos, já pré-oficial, abandonou a barraca dos cotas e alugou um quarto. Estava farto das pielas do velhote e antes que lhe passasse "uma coisa má pela cabeça " e desse um estalo no cabr.. do velho, mandou-os às malvas.Ele não queria aquilo, queria uma vidinha igual à dos oficiais da oficina que tinham o seu carrinho, bebiam a sua "jola" depois de terminado o dia de trabalho e passeavam umas " macacas " lá dentro de vez em quando. Aquilo é que era vida! Adepto confesso do Benfica, comprava todos os dias a " A BOLA " e engalfinhava-se em discusões que quase chegavam a vias de facto com os outros caramelos da oficina. Aos 21 anos juntou-se com uma tipa que vivia num outro bairro pobre, aprendiza de cabeleireira, com uns pais parecidos com o dele, e juntou os trapinhos com ela. Alugaram uma barraquita no sítio onde ela morava- sim que aquilo ao pricípio tinha que ser assim - , e projectavam sonhos sem fim. Chegou o primeiro filho, depois outro e ainda outro. Esfalfavam-se a trabalhar para os pequenos, para que nada lhes faltasse, mas a vida estava tão má! Depressa chegaram à conclusão que tão cedo não poderiam sair da barraca- o dinheiro mal dava para o dia a dia quanto mais para uma renda do Crédito Habitação - E o resto do ideal também foi definhando lentamente; Por fim já só restava a resignação. Há!...
mas os filhos, esses, teriam decerto uma vida melhor.
A única esperança era a geração vindoura. Sempre fora assim.... há séculos.

Próximo cromo: "O CÃO DE FILA "

Publicado por Zecatelhado às novembro 18, 2003 08:32 PM