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novembro 19, 2003
O ZÉ "CÃO DE FILA "
Nasceu no mesmo bairro pobre e abarracado do “ Zé Broa”, no entanto os seus pais não o presentearam com o modelo de educação do seu vizinho. Eram um casal austero quanto baste para ensinar ao seu filho um molde de conduta assente na obediência cega às ordens de quem está num plano social superior. Desde menino que foi habituado a ir
Todos os domingos à missa, a frequentar duas vezes por semana a Catequese e a aderir desde logo ao Escutismo Católico. Era um menino muito obediente e bem comportado e nunca mas nunca lhe tinham ouvido um palavrão. Mas como não há”bela sem senão”, nunca foi um prodígio de inteligência, terminando a muito custo a escolaridade obrigatória. Aos 16 anos empregou-se pela primeira vez como paquete de um escritório, fruto de um pedido do seu pai a um amigo. Era muito meigo e educado com os outros trabalhadores e depressa lhes granjeou a sua estima. Sempre prestável para todo o serviço, foi no entanto adquirindo uma forma especial de tratar O CHEFE geral.
Um dia o Chefe pediu-lhe para ficar mais um bocadinho depois da hora de saída e ele sem hesitar acedeu prontamente: “ Ó senhor Morais, o senhor manda! “. Como ficava feliz o chefe com esta dedicação mostrada pelo seu subordinado. Mais sabia que o que se preparava para pedir ao moço seria aceite sem perguntas.
- Dá-me licença sr. Morais? – pediu delicadamente ao entrar e fazendo uma vénia bem desenhada.
- Entre, entre e sente-se por favor.
- Eu fico bem em pé sr. Morais…
- Não, não!... faço questão que se sente… - e ele muito suave e delicadamente sentou-se bem na beira da cadeira - … Sabe,… tenho vindo a apreciar as suas qualidades como colaborador desta firma e estou muito satisfeito consigo…
- Óh! Sr. Morais…Eu…
- … Não não!, não diga nada, ouça!... Você é um exemplo de dedicação e lealdade a esta empresa. Como lhe disse, tenho vindo a apreciar as suas virtudes e pensei em
dar-lhe uma tarefa que eu considero urgente ser feita aqui na firma…
- Sr. Morais! Pode contar com a minha….
- … Eu sei, eu sei, nunca duvidei que você recusasse um pedido meu por tudo aquilo que conheço de si. Bem, mas adiante; Sabe que onde trabalham muitas pessoas há sempre muita intriga… muita inveja… e cozinham-se conspirações tendo sempre em vista tramar o chefe. Hoje em dia já não há moral nem bons costumes e os homens perderam a vergonha. Tenho medo que me armem uma armadilha qualquer e me coloquem em xeque perante a nossa Entidade Patronal. Claro que, eu num caso desses sou como o “ marido enganado”, seria sempre o último a saber e talvez já muito tarde para reparar a trama. É aqui que eu lhe peço que entre você! Acho que é um rapaz que, pela sua maneira de estar na vida é diferente dessa canalha e sei que rapidamente ascenderá a posição superior… quem sabe se não será você o meu substituto daqui a uns tempos quando a idade ditar leis à minha pessoa…
- Sr. Morais!...
- Não, não! Meu amigo, é assim como lhe digo, e digo até mais, serei eu que o irá sugerir ao nosso Conselho de Administração quando essa altura chegar!
- Sr. Morais, eu estou…, como direi?... profundamente comovido com a sua lisonja… eu não mereço isso sr. Morais…
- Merece isso e muito mais! E ficamos por aqui…. Mas voltando então ao que eu lhe queria pedir… hã!...
- Peça!, peça o que quiser, sr. Morais, garanto-lhe que não ficará desapontado!
- Eu sei, amigo, eu sei!... Bem, então lá vai: Quero que esteja atento ao que se diz nos corredores e nas casas de banho. Se necessário for “ pique “ os traidores para saber mais. Depois… venha contar-me… entendeu?
- Pode contar comigo sr. Morais, pode contar comigo!
Pronto! O futuro estava garantido! Ele, CHEFE do escritório! Nunca desejou outra coisa na vida! E aquele porco gordo do chefe Morais, que nunca mais morria, vinha oferecer-lhe tudo numa bandeja de prata!... Bem, o preço não era barato, possivelmente tinha que “entalar” alguns colegas, mas… e esta vida não era isso? Toda a gente a pisar-se continuamente a ver quem chega primeiro a algum lado? Então?... O mundo era para os espertos, os “ otários “ que dessem ao remo!
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Sua Excelência: O CHEFE
Publicado por Zecatelhado às novembro 19, 2003 08:10 PM