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abril 25, 2004

POEMA DE ABRIL


Esta noite revi muitas imagens do meu imaginário. Lembrei-me do Carlos Albino, do Carlos Albuquerque e do Manuel Tomás e do nosso "LIMITE", que eu ouvia no meu transistor colocado na almofada olhando o escuro do meu quarto,... e sonhava...e tentava adivinhar como seria o país de Abril.
Estes amigos, colocavam aquelas vozes que nós ouvíamos com um nó de alegria na garganta: O Zeca, O Zé Mário, o Sérgio...etc.
Bastas vezes punham o vinil do Zé Mário com este poema fabuloso dessa grande poetisa que foi Natália Correia.
Hoje, lembrei-me mais uma vez dele, ouvi-o pela milionésima vez no canto do Zé Mário, tornou a apertar-se a minha garganta e vivi Abril.
Provávelmente a maioria dos meus irmãos já o conhece, mas não resisti a deixá-lo aqui. VIVA ABRIL!...Sempre!


Queixa das Almas Jovens Censuradas

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prêmio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crânios ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
conosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte


Natália Correia


P.S. Os meus agradecimentos ao Blogquisto pelos belíssimos cartazes expostos e que eu, com a devida autorização, me atrevi a "roubar".

Publicado por Zecatelhado às abril 25, 2004 02:50 AM