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setembro 25, 2004

-Lá Vem a Nau Catrineta - Set II


Lá vem a Nau Catrineta
Que tem muito que contar
São Paulo Portas à Proa
Santanás a comandar
Ouvi agora senhores
uma história de pasmar

D. Bagão conta o pilim
D. Morais trata das velas
D. Guedes limpa com VIM
tachos pratos e panelas
D. Pereira na enfermaria
conta pensos e emplastros
E o D. António Mexia
põe vaselina nos mastros

Andava a nau navegando
junto à barra de Leixões
suavemente embalando
o sono destes ladrões

Vai sonhando D. Bagão
qual a forma mais cuidada
de arranjar mais um milhão
pr'ó baú da piratada

A forma foi encontrada
passe-se à acção depressinha
a taxa diferenciada
vai render muita massinha

Mas quando tudo dormia
algo os sobressaltou
mesmo ao romper do dia
A Catrineta encalhou

Ó mãezinha! Que se passa?
-grita a voz de D. Paulinho-
que aconteceu à barcaça?
ai o meu rico barquinho!

Acudi-nos Capitão,
venha cá já depressinha
já há água no porão
já se inundou a cozinha!

-Achei, D. Paulo, achei!...
-Achou o quê, D. Bagão?!
Achei depois que sonhei
como gamar um milhão!...

Calem-se suas araras,
parou a cacafonia!
mas que belo par de jarras
me tocou na lotaria!

Assim com esta firmeza
no seu real vozeirão
surge sua realeza
Santanás, o Capitão

Quem conduzia esta Nau
quando ela bateu no fundo?
vou dar nesse carapau
um castido d'outro mundo!

Como ninguém se acusava
diz Santanás novamente:
o homem que a Nau guiava
que dê já um passo em frente

Como nem um avançou
o tal passo ordenado
D. Santanás imperou
ao marujo ali ao lado:

Quero o nome e a função
que cada um ocupava
quero a lista aqui na mão
quero saber quem lá estava

Mas... meu senhor é por isso
que esta Nau encalhou
essa lista de serviço
ainda ninguém a topou

E como ninguém sabia
onde era colocado
o barco foi à deriva
e acabou encalhado

D. Santanás furioso
perante esta afirmação
com aquele olhar charmoso
soltou esta exclamação:

Chamai lá a Seabrinha
esse belo bibelot
essa linda tiazinha
que este caldinho arranjou

E dei-lhe eu duzentos mil
do baú, que prejuízo
Ai Santanás estás senil
perdeste todo o juízo

Quando me veio falar
dessa informatização
eu devia ripostar:
faça o trabalhinho à mão

Mas que querem, sou assim
por um rabinho de saia
eu digo a tudo que sim
seja Seabra ou Soraya

Deveria estar lembrado
da Torloni, qual xereta
que me levou trinta mil
por uma peça de treta

Mas a veia Valentina
ficou p'ra sempre gravada
e dei com aquela menina
a queca mais onerada

Ó Capitão... por favor
já chega de divagar
dê lá ordens, meu senhor
porque a Nau está-se a afundar!

Ai está?... que afunde então!
que se afunde de uma vêz!
refazer listas à mão
só lá para o fim do mês

Querem ver o calafate
a trabalhar na vigia
ou o nosso alfaiate
tratando a cordoaria?

Se calhar quereis o ferreiro
de esfregona no porão
ou então o timoneiro
a apontar o canhão?

São as listas que cordenam
não há remédio nenhum
são elas que mais ordenam
o que fará cada um

E enquanto a Seabrinha
à mão, pé, ou cabeçada
não nos trouxer a listinha
ninguém pode fazer nada

Vâo-se entretendo a escoar
no porão e no convés
a água que está a entrar
e nos cobre já os pés

Quando a lista aparecer
temos que recuperar
pois não há tempo a perder
temos que nos apressar

Cada um fará dois turnos
seguidinhos de empreitada
matutinos e nocturnos
não recebendo mais nada

Que o tempo que se perdeu
aqui com a Nau encalhada
não o irei pagar eu
nem a Seabra, coitada

Ela tadinha só queria
dar um ar arzinho moderno
à ralé desta enxovia,
a esta Nau do Inferno

E até estou a pensar
se a esta bela Dona
não a poderei reformar
tipo Celeste Cardona

Publicado por Zecatelhado às setembro 25, 2004 05:16 PM