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outubro 22, 2004

-Lá Vem a Nau Catrineta - Out.III


Lá vem a Nau Catrineta
Que tem muito que contar
São Paulo Portas à Proa
Santanás a comandar
Ouvi agora senhores
uma história de pasmar

D. Bagão conta o pilim
D. Morais trata das velas
D. Guedes limpa com VIM
tachos pratos e panelas
D. Pereira na enfermaria
conta pensos e emplastros
E o D. António Mexia
põe vaselina nos mastros

Andava a Nau navegando
pelo Tejo, cá e lá
umas vezes bolinado
e outras ao " Deus-dará"

há uma semana atrás
fora grande a'gitação
ninguém via Santanás
seu ilustre capitão

Pobre Nau desgovernada
navegava sem ter lei
murmurava a marujada:
"saberá disto El-Rei?"

Às tantas um marinheiro
sem poder aguentar mais
ver a Nau sem timoneiro
disse assim para os demais:

Chamemos lá D. Sarmento
o seu camareiro-mor
saberá esse jumento
onde pára o seu senhor?

Queremos que nos diga agora
tudo o que ele souber
se o homem foi "borda-fora"
ou se fugiu num escaler

Brada outro em ar gozado:
"Não deve ser coisa séria;
deve estar todo enrolado
na cama de uma galdéria!"

Outro ainda:" Nada disso...
não há fuga nem amores
está a endireitar o toutiço
escavacado nos Açores"!

E quando a turba opinava
meio a brincar meio a sério
eis que surgem na amurada
três valetes do império

D. Bagão fora de si
gesticulava furioso
e berrava aqui e ali
"gamaram o glorioso!"
"Já viram aquele artista
que não viu a bola entrar?...
levem-no já ao oculista
nem que seja eu a pagar!"

D. Paulinho que também
era adepto lampião
respondia: " Muito bem!...
devia ir p'rá prisão!"
E só saía de lá
isso vos garanto eu
quando o Benfica, olálá!
fosse campeão europeu!

D. Sarmento que os seguia
não ligava ao futebol
pensava era no que diria
à turba esperando ao sol

Já trazia engatilhada
uma boa explicação
à plebe que aguardava
novas do seu capitão

Dobrado no varandim
da proa da nossa Nau
lá abriu a boca enfim
fazendo cara de mau

Calai lá a cloaca
com a merda do futebol
essa gentinha de caca
que não vale um caracol

Tudo artistas de primeira
do Pintinho ao Valentim
Cunhas, Veigas e Vieiras
nunca se viu trampa assim

Quem vomita a toda a hora
bostas ao metro e ao quilo
tem é que ser sem demora
internado num asilo

Deixai pois essa merdice
que não dá pão a ninguém
já me chega esta chatice
de a plebe ouvir também

Que se passa seus coirões ,
já visteis o chavascal?
digam lá quais as razões
de tamanho carnaval!

"Senhor camareiro-mor...
-diz um marujo de trás-
diga-nos lá por favor
onde está D. Santanás!"
Nunca mais ninguém o viu
anda a Nau sem Capitão
se não zarou nem caiu
por onde andará então?

Ó seus cabeças de nabo
já com a rama amarela
que vos carregue o diabo
e vos coza na panela
É então por causa disso
que armais este arraial?
seus miolos de chouriço
já podre e a cheirar mal!

Voltai lá p'ró trabalhinho
que o capitão desta Nau
não se pirou de fininho
nem está a afiar o pau

Ficai todos a saber
p'rácabar com o alvoroço:
está simplesmente a bater
a sesta depois do almoço!

Publicado por Zecatelhado às outubro 22, 2004 08:07 PM