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dezembro 13, 2004

-História da Canção de Resistência...( 6 )


... ou "Música de Intervenção, ou "Canto Livre", nos Anos 60 e 70.
---cont.
Hoje venho aqui falar de uma figura "de peso" na Canção Livre; Hoje vou falar de LUÍS CÍLIA

Luis Cília nasceu no Huambo ( Angola ), em 1943.
Veio para Portugal em 1959,para prosseguir os seus estudos.
Em 1962 conheceu o poeta Daniel Filipe que o incentivou a musicar poesia. Datam desse ano as suas primeiras experiências nesse campo ( "Meu país", " O menino negro não entrou na roda" ,etc.),mais tarde incluidos no seu primeiro
disco,gravado em França, para a editora Chant du Monde. Em abril de 1964 partiu para Paris,onde viveu até 1974.
Em França estudou guitarra clássica com António Membrado e composição com
Michel Puig.
Entre 1964 e 1974 realizou recitais em quase todos os países da Europa.
Depois do seu regresso a Portugal continuou a gravar discos, como compositor e intérprete e a realizar recitais.Como intérprete, gravou dezoito discos, alguns dos quais dedicados a poetas ,tais como, Eugénio de Andrade ("O peso da sombra") Jorge de Sena ("Sinais de Sena"), ou David Mourão Ferreira ("Penumbra").
Nos últimos anos tem-se dedicado apenas à composição, nomeadamente para Teatro, Bailado e Cinema.
Cronologicamente ....
1943
Luís Fernando Castelo Branco Cília, nasce em Huambo, Angola. Vive parte da sua vida de estudante em colégios internos, por ser filho de pais separados.
Trava conhecimento no internato com o poeta Daniel Filipe que lhe mostra discos de Leo Ferré e George Brassens o que o leva a inflectir de tipo de opção musical. Participa nas lutas académicas de Coimbra, ou como ele refere com modéstia "era mais um que estava na cantina… sem que tivesse participação de realce", mas o que é certo é que foi nesta data aberto o seu processo na PIDE.
Frequenta económicas mas sem ligar muito às aulas. Integra as equipas de futebol e de basquetebol. Decide abandonar o país. Sai de Portugal no ano seguinte, acompanhado por um militar desertor e a esposa deste a "bordo" de um Fiat 500.
Vai para Paris onde chega a 1 de Abril. Aí trava conhecimento de imediato com políticos, poetas e músicos, com realce para a cantora Collete Magny a qual o irá apresentar à editora do seu primeiro disco: a "Chant du Monde". Grava o LP "Portugal-Angola: Chants de Lutte."
Neste mesmo ano conhece Adriano Correia de Oliveira e Manuel Alegre (quando este vai para Paris).
As suas primeiras músicas são feitas com total desconhecimento da obra de José Afonso ou de Adriano. Trabalha na União dos Estudantes Franceses, "(…) era o tipo que tirava lá cópias (…)".
Trava conhecimento com grandes expoentes da música francesa como George Brassens, o qual é o seu "padrinho" quando se inscreve na Sociedade dos Autores, em França. Posteriormente conhece o músico espanhol Paço Ibañez, de quem se tornou muito amigo e companheiro nos espectáculos profissionais e nos de pura militância, para sindicatos, associações e partidos. Edita o EP "Portugal Resiste" e faz a música do filme "O Salto".
Vai a Cuba. Actua no festival ( tocando em frente de Fidel Castro). Conhece Carlos Puebla e traz clandestinamente de Cuba as bobines da canção de Carlos Puebla "Hasta Siempre", as quais possibilitarão a divulgação desta canção na Europa.
Edita a trilogia de discos para editora EMEN, "La poesie portugaise de nos jours e de toujours 1, 2, e 3".
São discos posteriormente reeditados em CD em 1996, em França.
Participa activamente no Maio de 68, realizando espectáculos de apoio ao lado de Paco Ibañez e de Collete Magny. Durante finais dos anos sessenta e início da década de setenta, realiza espectáculos por toda a Europa: Inglaterra, Itália, Suíça, Espanha, etc. Neste país quase que é "apanhado" pois realizou um espectáculo em Santiago de Compostela e o Cônsul Português solicitou a sua detenção. Paga uma multa e são suspensos os espectáculos seguintes.
Em 1969 é expulso do PCP clandestino em França, pois recebia em casa amigos de outras convicções políticas. O que ele nunca deixará de fazer porque eram seus amigos.
Em 1971 o núcleo do PCP de Paris, verificando o erro cometido, pede-lhe desculpas pelo incidente de dois anos antes.
Em 1972 actua no primeiro comício do PS em França ao lado de José Mário Branco, não sem antes colocar certas condições tendo em conta que era militante de um outro partido.
Em 1973 o "Avante", canção de Luís Cília, é hino oficial do PCP, em Aveiro.
Em entrevista à rádio Portugal Livre, Luís Cília explica " … o Avante não começou por ser hino coisa nenhuma" - diz-nos - "foi de resto o Carlos Antunes que me pediu para fazer uma música para passar na rádio. E eu fiz, escrevi essa música, dei a partitura e a letra e nunca mais pensei nisso, não gravei e nem sequer era cantada por mim…"
Actua neste ano no Festival Mundial da Juventude na ex-RDA.
Edita "Contra a Ideia da Violência a Violência da Ideia" em clara homenagem a Amílcar Cabral, então assassinado. Reedita o seu primeiro disco mas agora acompanhado por contrabaixo, com o novo título de " Meu País".
No 25 de Abril de 1974 regressa a Portugal, no mesmo avião em que também regressam Álvaro Cunhal e José Mário Branco. Luís Cília ainda irá assegurar por algum tempo compromissos profissionais em França, não se estabelecendo completamente em Portugal.

Luís Cília compôs e cantou belos trexos. Já sabem da minha dificuldade de escolher um entre tantos tão maravilhosos, mas como tenho que escolher um, escolho um que vai pôr alguns de nós a cantar recordando:

Erguer a voz e cantar
é força de quem é novo
viver sempre a esperar
fraqueza de quem é povo

Não vás ao sabor do vento
aprende a canção da esperança
vem semear tempestades
se queres colher a bonança

Canta, canta amigo, canta
vem cantar a nossa canção
tu sozinho não és nada
juntos temos o mundo na mão

Já que me chamas amigo
prova-me lá que o és
vem para a ceifa comigo
na terra sujar teus pés

Eu vou contigo para o campo
eu vou colher o teu pão
tu dás-me a força da vida
e eu dou-te a minha canção

Continua... na próxima semana Sérgio Godinho

Publicado por Zecatelhado às dezembro 13, 2004 09:43 PM