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abril 09, 2005
- Lá Vem a Nau Catrineta ( 45 )

Lá Vem a Nau Catrineta
que tem muito que contar
com tricórnio de côr preta
D. José a comandar
D. Costa trata de ver
se corre tudo a preceito
D. Diogo vai escolher
os aliados de peito
D. Cunha juntou-se ao Pinho
dois em um, está bom de ver
p'ra contar o dinheirinho
que o baú vai receber
D. Luís limpa os canhões
D. Correia é enfermeiro
a Lurdinhas dá lições
a tudo que é marinheiro
D. Jaime é o despenseiro
D. Gago lê as estrelas
D Lino faz de pedreiro
D. Correia limpa as velas
D. Vieira é o tenente
mais querido da marinhagem
é ele que paga à gente
em cada mês de viagem
D. Pedro de pé à ré
transmite pr'à populaça
aquilo que D. José
ordena pois que se faça
D. Augusto é o papagaio
escolhido p'lo Capitão
D. Alberto é o lacaio
encarregue da prisão
A Dª Isabel de Lima
tem tarefa desgastante
escada abaixo, escada acima
que a cultura é importante
P'ra compôr o ramalhete
das flores do Capitão
só faltava o mandarete
quem é ele?...D. Lacão
É esta a tropa fandanga
que promete à Catrineta
que o discurso da tanga
já foi posto na gaveta
Com estes novos doutores
vai ser um sempre a aviar
ouvi agora senhores
uma história de pasmar
Andava a Nau bolinando
junto à Cova do Vapor
a tarde estava acabando
já o sol se estava a pôr
"Ó santíssima acalmia!"
-exclamava D. José-
nem uma agulha bulia
desde a pôpa até à ré
"E como se chama então
este deleitoso estado?"
-perguntou o Capitão
ao marujo ali ao lado
" A este estado dolente
de calmaria bacana
chamam-lhe lá p'ró Oriente
o estado de Nirvana"
"Qual Nirvana, que pensais?
isto aqui é Ocidente
temos dos Orientais
uma cultura diferente
Cá não chamamos Nirvana
na rua, vilória ou praça
desde o Coura ao Guadiana
chamamos "estado de graça"
"Se o dizeis, Capitão meu
vós sois mais inteligente
só sei que está limpo o céu
e o vento mal se sente
A marujada está piana
a populaça calada
passou mais uma semana
sem acontecer mais nada...
A malta está mais contente
a tanga virou roupão
pobre é certo, mas diferente
da parra do pai Adão
Cobre o tronco, e a cintura
sem esquecer coxas e cú
dá p'ra esquecer a'margura
da gente se sentir nú
E com aquelas promessas
que o meu capitão fez
não tarda pedimos "meças"
a qualquer lord inglês
Hão-de andar os marinheiros
sem sequer olhar a custos
com fatinhos domingueiros
fabricados no Augustus!"
"Que é lá isso afinal?
calma lá, seu tagarelas
que eu não sou o Pai Natal
nem o bruxo de Odivelas
os duendes da magia
ou as varas de condão
são filhos da fantasia
ou da mais pura ilusão...
Pés na terra com firmeza
embora o sonho subsista
tenho ambição, com certeza
mas quero ser realista
Se durante este mandato
não gastarmos quais camelos
talvez compremos um fato
na feira de Carcavelos
E olaré! marinheiro
vai dar muito trabalhinho
para o baú ter dinheiro
p'ra compra do tal fatinho
Não restou nada no saco
não há dinheiro p'rá sopa
para o pão e p'ró tabaco
quanto mais p'ra comprar roupa"
Autor: Zecatelhado - in: Tadechuva II - www.tadechuva.weblog.com.pt
Publicado por Zé do Telhado às abril 9, 2005 11:40 PM