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agosto 15, 2005

*Lá Vem a Nau Catrineta (48)

Lá Vem a Nau Catrineta
que tem muito que contar
com tricórnio de côr preta
D. José a comandar
D. Costa trata de ver
se corre tudo a preceito
D. Diogo vai escolher
os aliados de peito
D. Cunha juntou-se ao Pinho
dois em um, está bom de ver
p'ra contar o dinheirinho
que o baú vai receber
D. Luís limpa os canhões
D. Correia é enfermeiro
a Lurdinhas dá lições
a tudo que é marinheiro
D. Jaime é o despenseiro
D. Gago lê as estrelas
D Lino faz de pedreiro
D. Correia limpa as velas
D. Vieira é o tenente
mais querido da marinhagem
é ele que paga à gente
em cada mês de viagem
D. Pedro de pé à ré
transmite pr'à populaça
aquilo que D. José
ordena pois que se faça
D. Augusto é o papagaio
escolhido p'lo Capitão
D. Alberto é o lacaio
encarregue da prisão
A Dª Isabel de Lima
tem tarefa desgastante
escada abaixo, escada acima
que a cultura é importante
P'ra compôr o ramalhete
das flores do Capitão
só faltava o mandarete
quem é ele?...D. Lacão
É esta a tropa fandanga
que promete à Catrineta
que o discurso da tanga
já foi posto na gaveta
Com estes novos doutores
vai ser um sempre a aviar
ouvi agora senhores
uma história de pasmar
Bem cedo ao romper do dia
D. José se preparava
para ver se descobria
em que águas navegava
o Norte havia perdido
ia ver se o encontrava
estava pronto e decidido
a'char o que procurava

"Doce barquinha d'El-Rei
confesso do coração
juro por Deus que não sei
se é Norte ou Meridião
este mar onde navegas
sendo eu teu Capitão
tenho-te levado às cegas
sem saber a direcção

Prometi à marujada
que ia levar-te a bom porto
meti mãos à empreitada
logo a seguir ao aborto
que foi o D. Santanás
Capitão que nasceu torto
D. Burrão foi mais sagaz
fugiu antes de ser morto

Como te disse há bocado
confesso que ando à toa
bastante desnorteado
desde que deixei Lisboa
sentindo o vento zarpei
vaidoso postei-me à proa
como um príncipe sonhei
vir um dia a herdar a coroa

Mas quando os ventos cruzaram
soprando sem piedade
logo os sonhos se esfumaram
perante a realidade
dura esta em que nós'tamos
sem rumo força ou vontade
já perdidos navegamos
ai!... como é dura a verdade"

E assim gemia dolente
o Capitão D. José
olhando o mar tristemente
desde a pôpa até à ré
viu o aperto em que havia
metido toda a ralé
e a solução que não via
nem ao longe nem ao pé

"Espera aí!... que fizeram
esses bravos de "quinhentos"?
não lutaram e venceram
mares, marés, vagas e ventos?
Ora...lembra-te lá Zé
onde estão os instrumentos
que compras-te àquele monhé
numa loja dos trezentos?

Ah!... estão aqui na sacola
onde mais podiam estar?
Vamos ver se o mestre-escola
era bom a ensinar
teso e duro, pele tisnada
porque era um homem do mar
cada frase uma asneirada
que me fazia corar

Ora aqui está o sextante
vamos medir a'ltitude
que leva o sol neste instante
e aí está a longitude
e a latitude o que dá?
vamos calcular agora
depois...cruzar... e aí está
onde andamos nesta hora

Alvíssaras! Boas Novas!
acabou o triste fado
ó marujos, eis as provas
que o Norte foi encontrado
e se não creis no que falo
esperai só mais um bocado
antes do cantar do galo
estará o Cabo alcançado"

"Mas de que Cabo falais?
Capitão nosso Senhor??..."
"Ora... desse que pensais
o tal Cabo Bojador
onde um tal Bartolomeu
homem de grande valor
em noite negra de breu
enfrentou o Adamastor!"

"Quem me chama? Quem vem lá?"
- disse uma voz cavernosa -
"Olha! O jajo ainda cá está!
Ó criatura odiosa!
Salta do leme marujo
que a história é velha e famosa
vais ver esse porco-sujo
a tremer perante a Rosa"

Tomando o leme de peito
aberto à confrontação
colocou a Nau à jeito
proa virada p'rá acção
"Podes começar a cena
ó monstro da perdição
a peça até é pequena
e eu conheço o guião"

"Mas quem fala? Quem és tu?
que a história diz conhecer?"
" Ó calhau de Belzebú
então não me estás a ver?
sou D. José, o da Rosa
já estás a perceber?
filho da Pátria ditosa
que um dia te fez tremer"

"Ah! então és da terrinha
de um tal D. João segundo
esse com o qual me entretinha
a meter as Naus no fundo?
mas por ele até nutria
um respeito mui profundo
de modo que certo dia
o deixei descobrir mundo

Agora pelo que sei
reina um tal D. Cenourinha
que já nem sequer é Rei
nem a consorte Raínha
e de ti, pantomineiro
fez Capitão da barquinha
tu és tanto marinheiro
como o salmão é taínha

Estavas à espera de quê?
meu marujinho da treta?
era certo, já se vê
que a coisa virasse preta
quem marinheiro se arroga
e nunca viu uma alheta
não comanda uma piroga
quanto mais a Catrineta

Rebobino aqui a fita
volto p'rá minha caverna
um "T zero" mais catita
que essa contrução moderna
largue o leme, homem de Deus
que a Nau que você governa
presa a esses dedos seus
terá perdição eterna"

Dito isto o Adamastor
chiou três vezes baixinho
mais três vezes em redor
da Nau rodou de mansinho
e voou pelo escarpado
deixando a falar sozinho
um D. José derrotado
pelo calhau bem velhinho

"Com que então o ser arcano
que acagaçava a marinha
é um velhote bacano
mais manso que uma galinha..."
- era esta a opinião
de toda aquela maltinha
que assistira ao sermão
toda muito caladinha-

"...Capitão, largai o leme
da nobre Nau Catrineta
não vêdes como ela geme?
por favor dê à soleta
I'inda não viu que é um nabo
um Bartolomeu da treta?
Se insiste em dobrar o Cabo
pode crer q'inda se espeta!"

Publicado por Zé do Telhado às agosto 15, 2005 10:05 AM

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