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outubro 05, 2005
*Lá Vem a Nau Catrineta ( 54 )

Lá Vem a Nau Catrineta
que tem muito que contar...
De rosa se fez zarpar
p'ra uma nova demanda
é D. José quem comanda
esta Nau em alto-mar
Dessa aventura sem par
de loucos navegadores
ouvi agora senhores
uma história de pasmar
Com a Catrineta à bolina
rio abaixo acelerada
mais uma história malvada
engrossou a triste sina
desta Nau que não atina
em achar rota segura
e ond'é fatal a'margura
estar sempre ao virar da esquina
Mas como ia dizendo
este escriba vosso irmão
que com a pena na mão
estes versos vai escrevendo
estando a pobre Nau correndo
p'lo rio do desencanto
um'outra história de espanto
desabrochava em crescendo
"Quero a bujarrona içada!"
bradou alto D. José
p'ró contramestre que à ré
berrava com a marujada
ao ouvir a ordem dada
p'lo Capitão imperial
diz o nobre oficial
com voz de cana rachada:
"Isso também eu queria
meu Capitão general
ordenei a este animal
miolos de cotovia
daqui a pouco há meio dia
que içasse a pôrra da vela
mas o tipo ou está piela
ou surdo como uma enguia!
Será que temos motim
ou uma greve geral?
ou será que este pardal
quer fazer pouco de mim?
pois bem, se isso é assim
não vai tardar um 'stantinho
leva um estalo no focinho
e acaba-se o chinfrim!"
"Deixe de ser fanfarrão
e metá lá A.B.S.
já chega um no P.S.
com pinta de campeão
não vai ser ao estaladão
que esta Nau encontra o rumo
é com diálogo, presumo
com bom senso e'ducação
Fala lá meu desgraçado
homem desta caravela
porque não içaste a vela
como te foi ordenado?..."
"Meu senhor, eu estou pasmado
ninguém me deixa falar
quando tentei explicar
estive quase a ser linchado!
E pobre de mim coitado
sem ter culpas no cartório
augurei o meu velório
e à água ser lançado
ou ficar dependurado
como exemplo p'rá geral
ali no mastro real
e p'las aves devorado!"
"?!...Andaste no absinto
ou estás a ensandecer?
deves ter andado a ler
a saga do Mendes Pinto
é que é isso que pressinto
ao ouvir um tal chorrilho
...já adivinho, meu filho
andaste em provas de tinto!
Falemos sério, em suma:
porque não subiste a vela?"
"Mas meu senhor, cadê ela?
não temos vela nenhuma!
que o inferno me consuma
se isto não é verdade
juro pela eternidade
que não temos vela alguma!"
"Mau, mau, mau, mau, mau, mau, mau...!
não percebo patavina
desta conversa cretina
ó marujo desta Nau
fala a sério, põe-te a pau
ou cago p'rá tolerância
e opto pela arrogância
p'ra te tratar, meu calhau!"
"A velha vela tecida
nos teares da Covilhã
anteontem de manhã
deu o berro, foi à vida!
já estava tão carcomida
pela traça tão esgaçada
passajada, remendada
que pifou de tão cosida!
Telefonei logo de cá
p'rá Covilhã, já se vê
mas sabe vossa mercê
o que disseram de lá?
"Ó homem, não sabe já
que os lanifícios fecharam?...
faliram, já acabaram
por isso pano...não há!"
"Ó diacho!...em que ficamos?
lembrei-me do Vale do Ave
o problema era grave
pois sem vela não andamos
e se nós já navegamos
em mares de fel e vinagre
sem velas só por milagre
é que não nos afundamos
Mas do Ave, com efeito
a resposta foi igual
"...é que agora em Portugal
já compramos tudo feito!
vendo bem, tinha algum jeito
fazer velas, cobertores
nós um país de doutores
de gravatinha a preceito?"
Engraxando o tagarela
perguntei com voz suave:
e vossa excelência sabe
quem fabrica agora a vela?
precisamos tanto dela
que o senhor nem imagina
queremos uma, grossa ou fina
por mais que seja fatela!"...
"E ele não te indicou
quem a vela vende agora?"
"Claro senhor, na hora
o homem lá me safou!
por isso agora aqui estou
debruçado nesta ponte
a olhar o horizonte
esperando p'lo senhor Who!"
!?...Senhor Who?!... é japonês?"
"Chinoca, meu Capitão
são os caras de limão
quem as fabrica de vez!
Olhem, lá vem o freguês
no seu junco e a cantar
faça o favor de contar
o pilim para o chinês!"
Atracou o chinesito
estendeu a mercadoria
enquanto a sorrir dizia:
"eis a vela, venha o guito!
Saibam que estou aflito
pois tenho mais p'ra entregar
isto é um «sempre a aviar»
nem tempo há p'ra um copito"!
"Vê lá se ainda te matas!
eh,eh,eh! sabem vocês?
eu já vi este chinês
na baixa a vender gravatas!"
"Eh,eh,eh! e eram baratas?"
"cinco escudo a escolele!"
"eh,eh,eh!, ria a valer
um da turba já de gatas
Mas o chinês que escutava
o que os labregos diziam
quanto mais eles se riam
mais o homem cogitava:
"Por esta já eu esperava
isto é gente sem miolo
pensam que sou um parolo
com isso já eu contava
Já nenhum quer fazer nada
pensam comprar tudo feito
pois bem, é desse jeito
que a tumba vai ser cavada
será essa a vossa enxada
FORÇA COVEIROS DO DEMO
cavem bem de extremo a extremo
e esperem pela pancada
Nós fazemos, vós comprais
mas ainda pagais pouco
o chinoca não é louco
não vai já cobrar demais
não vai espantar os pardais
toca a agir com prudência
vós bem sabeis que paciência
é o que nós temos mais
O grande dia há-de vir
em que só tereis dinheiro
tudo doutor e engenheiro
mas ninguém p'ra produzir
e quem vos irá servir
velas, cordame, sabão
batatas, arroz e pão
que precisais consumir?
Quanto ao preço, quanto ao valor
seremos nós a fazê-lo
«eis o pão, quereis comê-lo?
preço de ouro, e por favor!»
grande será o estupor
quando a cagança cair
serei o último a rir
mas o que rirá melhor!"
Publicado por Zé do Telhado às outubro 5, 2005 01:00 PM
Comentários
Muito bem...é preciso que não te cales, que continuemos sempre a dizer as verdades, doa a quem doer!! Bom feriado. Beijos
Publicado por: Paula Raposo em outubro 5, 2005 01:24 AM
Acabas de nos brindar
com mais uma Nau Catrineta
em tanta verdade não há lugar
para ouvir conversa da treta
Sim, essa que todos ouvimos
dos políticos governantes
com promessas nos iludimos
mas está tudo como dantes
Com um abraço do Raul
Publicado por: congeminações em outubro 5, 2005 11:28 AM
Zá a tua Nau Catrineta, sem vela, anda à deriva, berra o comandante, berra o contramestre e berra a tripulação, todos berram na maior confusão.
Mas o que é certo é que sem vela a nau não anda.
Nau à deriva, é nau desgovernada, onde o timoneiro não manda nada.
Ela desce o Tejo, não com a força do vento, mas ao sabor da corrente.
Bordeja a margem esquerda, bordeja a margem direita, não sabem em qual delas vai encalhar.
Quanto ao problema dos texteis relacionado com o perigo amarelo, é uma história muito mal contada pelos nossos governantes, é preciso conhecer a verdadeira realidade. Em breve vou publicar no Editorial em texto sobre o assunto.
Um abraço. Augusto
Publicado por: augustoM em outubro 5, 2005 11:44 AM
Palavras sábias para orelhas surdas.
Publicado por: João Norte em outubro 5, 2005 01:56 PM
Ah GANDA ZECA!
Publicado por: Exilado em outubro 5, 2005 03:47 PM
Quem fala assim não é gago! Força!
Um abraço,
Francisco Nunes
Publicado por: Planície Heróica em outubro 5, 2005 03:55 PM
LIIIINNN...DO.
Publicado por: Xico Manel em outubro 5, 2005 06:26 PM
Muito, muito bom, Zeca! E vai aquele abraço, amigo.
Publicado por: Inês em outubro 5, 2005 07:11 PM
Homem, já tinha saudades de ler a tua Nau Catrineta! Continuas a chegar-lhes forte e feio... Fazes tu muito bem que eles merecem.
Beijos
Publicado por: lique em outubro 6, 2005 09:29 PM
desta vez exageraste...gastaste o papel todo quer dizer o blog.
Publicado por: hammer em outubro 7, 2005 10:46 PM