dezembro 01, 2005
No Castelo de D. Fuas ( I )

D. Fuas: Leanor amada esposa, estás tu já pronta p'rá missa?
Dª. Leanor: Ai D. Fuas, arre chiça, deslizais como a raposa!
D. Fuas: Não entendi minha rosa...
Dª. Leanor: Esgueirai-vos mui sorrateiro, sois mais leve que uma pena!
D. Fuas: Desculpa flôr de açucena se acaso te assustei!
Dª. Leanor: Ó esposo amado e meu rei, chamaste-me de açucena?
D. Fuas: Sim chamei, não gostaste?
Dª. Leanor: Ai meu senhor, ADOREI! Mas o que é que perguntaste?
D. Fuas: Se estavas pronta p'rá missa; Já lá está o nosso frade.
Dª. Leanor: Para vos falar verdade é só compor a camisa.
D. Fuas: E onde andam Xerazade, Inês, Teresa e Blimunda?
Dª. Leanor: Mocitas daquela idade devem andar na desbunda, eh,eh,eh! Faço ideia onde andarão!
D. Fuas: Mas decerto à missa irão?!
Dª. Leanor: Podeis ficar à vontade porque à hora lá estarão.
( O rei, a raínha, as princesas e a restante corte entram na capela do castelo. Tem início a missa solene e mais à frente o sermão pelo frade Paio )
Frade Paio: Caríssimos irmãos: Hoje vamos debruçar-nos sobre Mateus 9.22, onde se afirma:
«É mais fácil um camelo salvar-se...???!!!...» Perdão, eh,eh,eh! o que eu queria dizer não era isto, era: « É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico conseguir a salvação», assim é que está correto.
Afastai-vos pois da riqueza e rejeitai-a convictamente, porque o dinheiro e o poder enlouquecem o homem, tornam-no ruim e maldoso levando-o à perdição total e à condenação eterna.
Quinas, Melos, Champalimoud's, Pereiras Coutinhos, Amorins, Belmiros e afins, têm como destino garantido o tormento eterno nas brasas do inferno.
E também vai chupar chispas todo aquele que se deixar tentar pelo jogo. Totobolas, totolotos, toto-milhões, raspadinhas e lotarias, vai ser um "vê se te havias" de almas virando tições.
Ficais por isso avisados: Se não quereis ser chamuscados mandai à vida os cifrões!
Palavra da salvação; Demos graças a Deus!
( Termina a missa. D. Fuas retira-se para os seus aposentos e chama a esposa )
D. Leanor: Chamaste-me meu senhor?
D. Fuas: É verdade Leanor, chamei sim.
D. Leanor: E que pretendes de mim?
D. Fuas: Estou muito preocupado depois de escutar frei Paio. Sinto-me em mísero estado, quase a dar-me o badagaio!
D. Leanor: Credo, cruzes canhoto, te arrenego diabrura!
D. Fuas: O fradeco de tonsura... é vivaço e mui maroto!
D. Leanor: Também me ficou no goto e ia falar-te nisso.
D. Fuas: O clérigo é castiço, é danado esse frei Paio!
D. Leanor: Que problema de um raio veio ele levantar...
D. Fuas: Que não se podem salvar os que vivem na abastança...
D. Leanor: E aquela semelhança entre a agulha e o camelo...
D. Fuas: Ora se até um cabelo mal pode entrar na ranhura...
D. Leanor: Imagine-se um camelo que tem dois metros de altura...
D. Fuas: P'ra não falar da largura!
D. Leanor: Vamos ter que ir à procura de remédio e solução...
D. Fuas: Porque senão...
D. Leanor: As brasinhas de carvão porão um fim à'ventura!
D. Fuas: Penso que é chegada a altura de consultar D. Raimundo, homem de grande cultura, senhor de um saber profundo.
( O rei pede a comparência do Conselheiro Raimundo )
D. Fuas:Entra e põe-te à vontade. Senta-te no canapé.
D. Raimundo: Estava ensinado oboé à princesa Xerazade...
D. Fuas: Deus abençoe essa mona que até solfejo ensina.
D. Raimundo: Xerazade é uma menina muito alegre e brincalhona, mas também mui espertalhona... adorada princesinha vossa filha graciosa...
D. Fuas: Um botãozinho de rosa, dará formosa raínha!
D. Raimundo: Ai isso de certezinha! Senhor D. Fuas, meu rei, porque mandaste chamar-me?
D. Fuas: Tenho algo a inquietar-me, algo que eu ouvi dizer.
D. Raimundo: E o que é, posso saber?
D. Fuas: Tem a ver com a salvação, e também com a perdição da minha alma, estás a ver?
D. Raimundo: Bem...a ver, a ver... não estou; explicai-vos meu senhor!
D. Fuas: Tendes razão, é melhor, ficais já a perceber. É que estou preocupado com o tema do sermão feito pelo capelão na missinha de há bocado.
D. Raimundo: Sobre agulhas e camelos?
D. Fuas: Arrepiam-se-me os cabelos só de pensar, entendeste? Sendo eu rei sou um ricaço... apanhei um tal cagaço...
D. Raimundo: Percebi o que disseste.
D. Fuas: Ainda bem que entendeste. Agora pergunto eu: Há solução p'ró dilema?
D. Raimundo: Confesso senhor que o tema é deveras interessante, mas se esperares um instante eu talvez arranje um esquema...
D. Fuas: Não me digas que és capaz?!
D. Raimundo: Sabei, conheço um rapaz... que penso ter resolvido há uns tempinhos atrás o assunto discutido.
D. Fuas: Ah, D. Raimundo, meu querido e amado conselheiro, confesso que estou rendido!
D. Raimundo: Vou já chamar o banqueiro.
D. Fuas: Que disseste?! Um banqueiro?!
D. Raimundo: Sim senhor, a tempo inteiro!
D. Fuas: E quem é essa figura?
D. Raimundo: Logo sabereis na altura em que vo-lo apresentar.
D. Fuas: Também gostas de brincar,eh,eh,eh! Posso ficar descansado?
D. Raimundo: Deixai-vos ficar sentado que volto antes do jantar.
( D. Raimundo retira-se. D. Fuas fica só com a raínha sua esposa )
D. Fuas: Ai minha esposa adorada, este fiel D. Raimundo...
Dª Leanor: Bem podias correr mundo de lamparina atiçada...
D. Fuas: Nem com varinha de fada outro igual eu acharia!
Dª Leanor: Que seja bendito o dia em que a mãe o pôs no mundo!
D. Fuas: Deus te guarde bom Raimundo!
( Passadas duas horas regressa D. Raimundo e entra na sala do trono )
D. Raimundo: D. Fuas, rei e senhor, cá estou como prometido sem o jantar ser servido.
D. Fuas: Não fico surpreendido, sempre foste pontual, mas também estou curioso. Juro serei generoso se vir isto resolvido. Manda entrar o tal banqueiro.
( Entra o misterioso banqueiro )
D. Raimundo: D. Fuas, real senhor e nosso rei muito amado, tal como disse há bocado volto a dizer outra vez, este distinto freguês, banqueiro mui afamado, Jardim Gonçalves chamado, tem a chave do mistério...
D. Fuas: A sério?
D. Raimundo: A sério!
D. Fuas: Mas como soubeste tu do caso deste banqueiro?
D. Raimundo: Quando uma tarde o ferreiro, que conheceis, um tal Paco, entrou aqui ao palácio p'ra pedir o meu parecer. O pobre não entendia por mais que desse ao miolo, para o que serviria instrumento mais parolo...
D. Fuas: Instrumento?!...
D. Raimundo: Deixai-me continuar. Ora efectivamente, ao ver o dito instrumento, percebi nesse momento o que estava a magicar o nosso amigo banqueiro. Lá descansei o ferreiro, pedi que continuasse e que não se apoquentasse pois estava são o banqueiro.
D. Fuas: Mas que disseste ao ferreiro? 'Inda não percebi nada!...
D. Raimundo: Entendereis tarda nada, tal como eu entendi. Indo também o banqueiro à missa regularmente, ouviu como toda a gente a tal história do camelo. Parece que estou a vê-lo, foi p'ra casa a magicar como se iria salvar sem perder um só cabelo.
E conseguiu-o senhor, de uma forma assaz brilhante, e foi aí nesse instante que procurou o ferreiro.
Ora como disse atrás, percebi logo depois, foi só somar dois mais dois e...zás! a conta batia certa!...
D. Fuas: A conta?!!! Qual conta?!!! Cada vez percebo menos!
D. Raimundo: Mas meu senhor, é claro, mais até que água do Luso!...
D. Fuas: Pois cá p'ra mim é confuso...
D. Raimundo: Mas senhor, não estais a ver? Então adorado rei, será louco este banqueiro que pertence à Opus Dei sabendo ir p'rá braseiro? Posso garantir-vos eu: Aqui o nosso Jardim 'inda não ensandeceu, está bem lúcido, isso sim!
D. Fuas: Ora vira-te para mim, que ainda nada entendi; Dizes chamar-te Jardim?
Jardim: É exactamente assim.
D. Fuas: Vamos direito ao assunto, vou meter aqui a estaca, estamos a serrar presunto e não a cortá-lo à faca. Diz-me lá concretamente: Se no buraco da agulha não cabe nem um cabelo, como é que conseguiste fazer passar um camelo?
Jardim: Majestade excelentíssima, saiba que me sinto honrado, por estar ao vosso lado e da raínha digníssima.
Quanto ao caso em questão, como disse D. Raimundo, empreguei-me bem a fundo para achar a solução. Sendo eu um bom cristão, amigo dos pobrezinhos, era injusto até mais não ir de encontro aos diabinhos. Vai daí pus-me a pensar e disse assim cá p'ra mim: « Tenho que achar, isso sim, a forma de me salvar». Matutei...matutei...e...ACHEI!
Ora bem, se o camelo não passa pelo buraco, nem que eu lhe corte o pêlo ou o transforme em guanaco, só estou a ver um caminho de o fazer passar então: No lugar do buraquinho eu fazer um buracão!
Vai daí fui-me ao bichinho e com o metro na mão, medi do rabo ao focinho e da bossa até ao chão. E fui ao Paco ferreiro mandar fazer uma argola onde o bicho direitinho, desde o rabito à carola coubesse todo inteirinho.
E essa argola meu rei, mandei-a soldar à agulha!
D. Fuas: E ora toma e embrulha, eh,eh,eh! resolvido de verdade!
Mas diz-me lá p'ra'cabar, como surgiu a ideia?
Jardim: Foi quanto estava a escutar em directo da Assembleia o Orçamento de Estado!
D. Fuas: Com essa fico banzado!?
Jardim: Mas porquê real senhor?
Todos os anos assisto
ali naquele Parlamento
a discussões que só visto
por buracos no orçamento
Os buracos são diferentes
conforme a cavalgadura
e a corja de incompetentes
que tem o poder na altura
Como tal pensei: Jardim
afinal não custa nada
então se isso é assim
vá de imitar a cambada
Mãos à obra amigo Paco
nem é preciso modelo
calculamos o buraco
p'lo calibre do camelo!

Autor: Zecatelhado- em: www.tadechuva.weblog.com.pt
Publicado por Zé do Telhado às 10:20 PM | Comentários (9)